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Viagem ao Passado: O dia em que o Pajeú foi bater no Rio Nilo

Romero Moraes por Romero Moraes
3 de maio de 2021
emᅠ Destaque, Viagem ao Passado
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Viagem ao Passado: O dia em que o Pajeú foi bater no Rio Nilo
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Lindoaldo Campos
Mestrando em História dos Sertões
Membro do CPDoc-Pajeú

Aposto que todo mundo conhece esse quadro:

Isso mesmo: é O beijo de Judas (em italiano: Bacio di Giuda) que Giotto di Bondone, mestre italiano do Renascimento, pintou lá pra 1304.
E, claro, todo mundo já ouviu falar de Judas (alguns inclusive já devem ter espancado um boneco com esse nome na sexta-feira da Semana Santa). E acertou de novo quem disse ou pensou que é aquele que perdeu as botas.
Pois é: quem é Judas e que ele perdeu as botas todo mundo sabe. Agora, o que ninguém quer saber é onde isso aconteceu, pois a expressão “onde Judas perdeu as botas” refere-se a um lugar longe, longe, mas bota (não resisti ao trocadilho) longe nisso.
Na Bíblia mesmo não há nenhum indício ou relato de que Judas Iscariotes, o delator de Jesus, calçava botas – aliás, a partir do chamado Evangelho de Judas, hoje se questiona até mesmo se Judas foi um traidor, porque teria atendido a uma ordem do próprio Jesus para lhe entregar ao Império Romano.
Mas voltemos às botas, sobre as quais o que existe é uma antiga história popular segundo a qual Judas teria escondido as trinta moedas que recebeu pela traição em um par de botas – que não calçava quando os soldados o encontraram enforcado em uma árvore e que talvez por isso simbolizem algo difícil de se achar ou de que todo mundo quer distância (o famoso “cu de Judas” – aliás, leiam um livro arretado de António Lobo Antunes chamado Os cus de Judas).
Acontece que nem só de Judas e do gato de Perrault e de Shrek vivem as botas.

O Gato de Botas
de Gustave Doré
Baseado na obra de Charles Perrault, cujas histórias mais conhecidas são Chapeuzinho Vermelho, A Bela Adormecida, O Gato de Botas, Cinderela e O Pequeno Polegar

Elas também estão na história de outro famoso personagem bíblico: José, o carpinteiro. Esse mesmo: José, o esposo de Maria, genro de Santana e Joaquim e pai de Jesus, a cujo respeito diz o Padre José Antônio Bertolin em seu Curso de Josefologia (estudos sobre São José):

José é uma pessoa grandemente reflexiva e isto ele o demonstrou desde quando procurava entender a divina maternidade de Maria, quando vislumbrando viu o Salvador do mundo nascer na pobreza e ser homenageado pelos pastores e magos, quando o apresentou no Templo, quando na fuga que com ele e sua esposa fez para o Egito e depois de lá voltou para a sua pátria. Em suma, ele, como descreve o evangelista Mateus, é um homem justo, alguém consumado na perfeição.

A diferença é que, no caso de José, o que aconteceu foi que, em vez de perder, ele ganhou um par de botas para simbolizar a jornada que a Sagrada Família fez em demanda do Egito para proteger o menino Jesus de Herodes (que na época promovia do Massacre dos Inocentes) – e por isso nada tem a ver com o José citado no Gênesis (Antigo Testamento) que em tempos muito anteriores foi vendido pelos irmãos e levado para o Egito, onde se tornou conselheiro do Faraó mandatário de toda a região.
É o que consta do primeiro livro do Novo Testamento: o Evangelho de Mateus (2:13-15):

Depois de haverem partido, eis que um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, dizendo: Levanta-te, toma contigo o menino e sua mãe, foge para o Egito, e fica ali até que eu te chame; pois Herodes há de procurar o menino para o matar.
José levantou-se, tomou de noite o menino e sua mãe e partiu para o Egito, e ali ficou até a morte de Herodes; para que se cumprisse o que dissera o Senhor pelo profeta: Do Egito chamei a meu Filho.

Iluminura atribuía ao chamado Mestre de Bedford (atente para as botas de José)

Claro: além de tudo, a Bíblia é uma ótima fonte histórica, assim como os versos do poeta João Batista de Siqueira (Cancão):

E

m certa noite baixou
Um anjo e disse a José:
“Te afasta de Nazaré
Que Herodes se revoltou”
Logo José despertou
Sua esposa que dormia
Fugiram na noite fria
Com o filhinho inocente
O hebal ainda sente
A passagem de Maria

Passaram pelo Egito
Uns certos tempos marcados
Como três refugiados
Por causa do rei maldito
Como o anjo havia dito

N

aquela noite sombria
A José que deveria
Passar uns anos ausente
O herbal ainda sente
A passagem de Maria

Estiveram lá até
Quando Herodes faleceu
Logo que isto se deu
Voltaram pra Nazaré
Jesus, Maria e José
Pra primeira moradia
Onde a família vivia
Veio a viver novamente
O hebal ainda sente
A passagem de Maria

E foi assim que na Idade Média e sobretudo com o estilo Barroco (caracterizado pelo esplendor exuberante) a imagem de São José ganhou botas e dessa forma passou a ser amplamente representada, como nessa escultura de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, o maior expoente do Barroco nas Américas:

São José de Botas, de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (c. 1730-1814)
Imagem do século XVIII, com 57,5 cm e em madeira policromada e dourada.
Acervo do Palácio dos Bandeirantes, São Paulo

Pois bem: na época do Brasil Colonial (1500- 1822), São José de Botas foi logo adotado como santo protetor dos bandeirantes, homens que usavam calçados semelhantes nas constantes viagens que a partir do início do século XVI faziam aos sertões, em busca de minérios e pra matar e escravizar (eles chamavam de prear) indígenas e negros.

Domingos Jorge Velho (pintura de Benedito Calixto) (Vila de Parnaíba,/SP, 1641 – Piancó/PB, 1705), bandeirante contratado pelo Governador de Pernambuco Caetano de Melo e Castro para liderar as tropas que destruíram o Quilombo dos Palmares em 1694 e pra matar índios na Guerra dos Bárbaros, conflito ocorrido entre 1651 e 1720 nos estados do Rio Grande, Paraíba, Ceará, Maranhão, Piauí e Pernambuco e que envolveu a chamada Confederação dos Cariris (mas que na verdade era formada pelo povo indígena Tarairiú).

É por isso que por todo o Brasil há localidades que têm São José de Botas como padroeiro, como Macapá, capital do Estado do Amapá, São José do Rio Preto, em São Paulo, e Toledo, em Minas Gerais (para onde foi levada por seu fundador, o bandeirante Simão de Toledo Piza).
Em Tiradentes, também em Minas Gerais, há o Chafariz de São José de Botas, de 1749, a principal fonte de abastecimento de água da cidade no período colonial e o único do estado que tem um oratório com uma imagem de santo.

Mais pra perto de nós, São José de Botas é o padroeiro da igreja construída entre o final do século XVIII e o início do século XIX no Sítio São José, Município de Tamandaré, Pernambuco.

Igreja de São José de Botas
(Sítio São José, Município de Tamandaré/PE)

Detalhe do frontispício, com o brasão de São José de Botas, constituído por um serrote, régua, compasso e esquadro (instrumentos símbolos da carpintaria – profissão de São José – e da Maçonaria)

Mas vamos chegando mais pra perto ainda, pois São José de Botas é o padroeiro sabe de quem? Da paróquia da Ingazeira, a terra-mãe do Alto Sertão do Pajeú.
E vamos nós contar essa história.
Primeiro, veja de novo lá no quadro ao lado da pintura de Domingos Jorge Velho. Viu que ele morreu em Piancó/PB? Isso porque a partir de 1650 (ou seja, depois da saída dos holandeses de Pernambuco) intensificou-se o processo de colonização do sertão e bandeirantes vinham do Rio São Francisco e passavam pelo Pajeú em direção à Paraíba e Rio Grande do Norte.
É o que mostra o seguinte mapa feito por Maria Simone Soares (Formação da rede urbana do Sertão de Piranhas e Piancó da Capitania da Paraíba setecentista, p. 66):

Acontece que de besta os bandeirantes não tinham nada e muitos terminaram ficando nessa terra abençoada, como relata o Padre Carlos Cottart no Livro de Tombo I da Paróquia Senhor Bom Jesus dos Remédios, de Afogados da Ingazeira/PE, de 1911:

Colonizadores baianos foram quem primeiro se estabeleceram pelas margens do Pajeú. Temos ainda hoje que as datas de sesmarias remontando à família da [Casa da] Torre na Bahia mandava seus gados pastorear pela bacia toda do Pajeú.

E foi assim que São José de Botas veio bater em Ingazeira. E está lá até hoje, viu? Quer ver, veja a imagem que está na Igreja Matriz:

São José de Botas, de escultor desconhecido)
(Matriz de Ingazeira/PE)
Foto do arquivo pessoal de meu amigo Lula Veras da Ingazeira, que nesse dia foi à igreja só pra tirar esse retrato

E é por isso que no início de sua história Ingazeira também foi chamada de São José da Ingazeira.
Mas aí a coisa complicou: e São José da Ingazeira não era o nome de São José do Egito?
Exatamente: São José da Ingazeira foi o segundo nome do hoje Município de São José do Egito:

 Primeiro nome: São José das Queimadas (de aproximadamente 1830 a 1872)

 Segundo nome: São José da Ingazeira (a partir da Lei Provincial nº 1028, de 21 de março de 1872)
 Terceiro nome: São José do Egito (a partir da Lei Provincial nº 1516, de 11 de abril de 1881)

Então devemos ter cuidado (sobretudo quanto a documentos antigos):

 Até 1872, a denominação “São José da Ingazeira” refere-se ao povoado que deu origem ao Município de Ingazeira
 A partir de 1872, a denominação “São José da Ingazeira” refere-se ao povoado que deu origem ao Município de São José do Egito

E essa coincidência de nomes não é coincidência não: isso é porque o santo padroeiro de Ingazeira é o mesmo santo padroeiro de São José do Egito: São José de Botas.
Isso mesmo: alguns dos fundadores de São José das Queimadas certamente vieram da Ingazeira e de lá trouxeram seu santo de devoção – o que, aliás, provocou a ira do então líder político de Ingazeira, Coronel Francisco Miguel de Siqueira, que mandou derrubar a capela que os habitantes de São José das Queimadas fizeram em louvor a São José.
É o que registra o Padre Carlos Cottart no referido Livro de Tombo:

O dono [de Varas, atual Jabitacá/PE] só queria criar, não queria que se edificassem casas. Era este Coronel Francisco Miguel de Siqueira […] Ele e os homens dele (sustentava cangaceiros) tornaram o lugar inóspito […] Enfim a braveza dos habitantes fez com que os habitantes do Egypto construíssem uma capela em seus terrenos, porque não lhes era possível expor aos maus tratos dos da Ingazeira. O coronel Francisco Miguel mandou gente com machados derrubar o trabalho feito. Os do Egypto tornaram a fazer guardando o mesmo padroeiro da Matriz São José.

Tá vendo? E tem gente que até hoje injustamente pensa que quem derrubou a capela de São José das Queimadas foram os moradores do povoado São Pedro.
Mas aí vem outra parte interessante dessa história de santo, botas e cidades.
Basta juntar as peças: a) os fundadores de São José das Queimadas eram devotos de São José de Botas e b) São José de Botas simboliza a jornada que, junto com a Sagrada Família, José fez para o Egito.
Aí ficou fácil né? O São José de Botas padroeiro de Ingazeira e das Queimadas é o São José que foi para o Egito, ou seja, o São José… do Egito!
Aliás, acho que nem precisava esse arrodeio todo, porque tudo isso Nilza Botelho Megale resume no O livro de ouro dos santos:

São José foi esposo de Maria Santíssima e pai adotivo de Jesus. É um dos santos mais venerados no Brasil, contando com quase duzentas paróquias. Em várias igrejas do Brasil existem imagens de “São José de Botas”, isto é, o santo que usa botas de cavaleiro em vez das sandálias tradicionais. É o São José do Egito, peregrino, viajante, protetor dos caminheiros.

Mas bom mesmo é contar história. E essa termina assim: certamente para marcar ainda mais sua emancipação em relação à Ingazeira e se desvincular do nome e do simbolismo medonho das botas de Judas, foi escolhido o nome arretado de São José do Egito para um dos vários reinos da poesia do Alto Sertão do Pajeú – e esse foi o dia em que o Pajeú foi bater no Egito, famoso também pelas pirâmides e pelo Rio Nilo, o mais extenso rio do mundo.
E ô Pajeú pra ter história!

Tags: Viagem ao Passado
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